Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Beleza Ferraz. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Beleza Ferraz. Mostrar todas as mensagens

domingo, 21 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28118: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (7): duas "retiradas finais": Bissau (15/10/1974) e Saigão (29-30/4/1975): (dis)semelhanças









Recortes de imprensa, "Diário de Lisboa", 30 de abril de 1975, 2ª ed., pp. 1 e 20.

Fonte: Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso |  Pasta: 06822.172.27196 | Título: Diário de Lisboa | Número: 18752 | Ano: 55 | Data: Quarta, 30 de Abril de 1975 | Directores: Director: António Ruella Ramos; Director Adjunto: José Cardoso Pires | Edição: 2ª edição | Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos | Tipo Documental: Imprensa  




Vietname > Saigão> 29 de abril de 1975 > Um membro da CIA ajuda um grupo de evacuados civis,  a subir uma escada para um helicóptero da Força Aérea Norte-Amerivcana, no telhado do número 22 da rua Gia Long, pouco antes da queda iminente de  Saigão às  mãos das tropas norte-vietnamitas.  Foto histórica do fotojornalista neerlandês Hubert van Es (1941-2009). Imagem do domínio público. Cortesia de Wikimedia Commons.


1. Há 51  anos a agência Reuters e o Diário de Lisboa, de 30/4/1975, noticiavam o fim da guerra do Vietname (*).  Uma guerra que se arrastou por  3 décadas, e que foi um pesadelo para todos, como todas as guerras o sao: os vietnamitas e os outros povos da Indochina (Laos e Camboja), os franceses, os americanos e outros aliados... (e demais povos e todo o mundo, já que não foi  uma mera guerra colonial nem regional, desenrolou-se em pleno clima de "guerra fria").

A guerra do Vietname envolveu diretamente mais de 10 países. O conflito militar abrangeu três palcos principais (Vietname, Laos e Camboja) e foi também um confronto entre dois blocos ("capitalista" e "comunista", oeste e leste). Os EUA começaram a mandar tropas para o Vietname a partir de 1965, atingindo um pico de 543 mil  em abril de 1969.
 
Foi também uma guerra que esteve no nosso "imaginário"... Mais do que isso: também sobrou para nós... Os mísseis russos terra-ar Strela, por exemplo, já tinham sido testados no Vietname... bem como a passagem da guerrilha à guerra convencional (no caso, por exemplo,  da Guerra dos 3 G: Guidaje, Guileje, Gadamael)...

E havia até quem, mal ou bem, na nossa geração, comparasse a guerra da Guiné com a do Vietname... É evidente que foram duas realidades incomparáveis: pelos meios bélicos empregues, em homens e armas, pela extensão do território, pela violência, pelo nº de baixas, pelas implicações geopolíticas a nível mundial,  etc.. As nossas guerras (em 3 TO, Angola , Guiné e Moçambique) foram de "baixa intensidade". 

Estima-se que em 1967 as forças do Vietname, Vietcongues e  seus aliados fossem da ordem dos 860 mil, enquanto que do lado do Vietname do Sul, EUA e demais aliados rondassem os 1,4 milhões (em 1968). 

O número de mortos (civis e militares), apenas vietnamitas, são difíceis de calcular, estimando-se entre menos de 1 milhão, e 3 milhões. Do lado das forças dos EUA,  as baixas seriam as seguintes: c. 58,2 mil mortos; mais de 150 mil feridos graves (evacuados); 1626 desaparecidos (ainda em 1975) (Fonte: Wikipedia). 



Luís Gonçalves Vaz 
2.  
A retirada portuguesa da Guiné-Bissau em 15 de outubro de 1974 e a evacuação americana de Saigão em 29/30 de abril de abril de 1975 podem ser apresentadas como dois exemplos, diferentes, se não mesmo opostos, do fim de uma guerra prolongada e de uma presença militar "além-mar". 

Ao analisamos, porém os detalhes, constatamos que s diferenças são tão importantes quanto as semelhanças.

O texto do Luís Gonçalves Vaz (**) descreve a retirada portuguesa como uma operação cuidadosamente planeada, e melhor executada, baseada na Ordem de Operações n.º 1/74, na sequência do acordo político entre Portugal e o PAIGC. 

Cerca de 2.500 militares metropolitanos (os últimos de um exército que totalizava dez vezes mais, sem contar com cerca de 15 mil homens em armas, do recrutamento local, incluindo milicias), foram retirados por via marítima, sob coordenação da Marinha (Comodoro Al,meida D'Eça), mantendo-se dispositivos de segurança até ao último momento.

 E tudo aconteceu com dignidade, segurança, ordem, disciplina, com respeito, até essa data, no que foi assinado nos acordos de paz entre as NT e o PAIGG. ( O que se passou depois é outra história, a "caça" aos "cães dos colonialistas"...)

O que têm em comum as duas retiradas, separadas no tempo apenas por seis meses? E, no espaço: os portugueses estavam a 4 mil km de casa, os norte-americanos a 13 mil (***).

(i)  O fim de uma guerra sem vitória militar clara

Em ambos os casos, os exércitos retiravam-se sem terem sido derrotados numa batalha decisiva nos dias finais. Portugal abandonava a Guiné após o 25 de Abril e o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau, em 10 de setembro de 1974, aceitando retirar as últimas tropas até 15 de outubro de 1974. Por seu turno, os EUA abandonavam o Vietname do Sul após anos de guerra (1965/73)  e depois dos Acordos de Paris de 1973.

Em ambos os casos, a decisão foi sobretudo política.

(ii) Forte componente logística

Tanto em Bissau como em Saigão, o desafio principal foi retirar pessoal, equipamento e documentação.

No caso português, o texto do Luís Gonçalves Vaz destaca o papel dos navios T/T  Uíge e Niassa e da fragata NRP Comandante Roberto Ivens como núcleo da operação, além das LFG  Lira e Orion.

Em Saigão, os americanos recorreram a uma gigantesca ponte aérea por helicópteros a partir da embaixada e de navios da 7.ª Frota. Foram evacuados 6500 militares e civis, incluindo diplomatas.

(iii) O simbolismo das imagens

As imagens do arriar da bandeira portuguesa em Bissau e das multidões junto à embaixada americana em Saigão tornaram-se símbolos do fim de uma época. 

As diferenças fundamentais;

  • A retirada portuguesa foi negociada; a de Saigão foi uma evacuação de emergência

Esta é provavelmente a maior diferença. Na Guiné, existia o Acordo de Argel (26 de agosto de 1974). O PAIGC cooperou na transição. E a retirada foi planeada com datas, meios e responsabilidades relativamente bem definidas. 

Em Saigão, o exército norte-vietnamita e o Vietcongue avançavam rapidamente. A capital estava prestes a cair. A  evacuação dos últimos soldados e funcionários diplomáticos bem como de milhares civis (sobretudo sul-vietnamitas)  foi feita sob enorme pressão temporal, para não dizer pânico.

  • Não houve colapso militar português

O texto da autoria do Luís Gonçalves Vaz (que tinha 14 anos em 1974, quando deixou Bissau, antes do pai, que foi dos últimos militares a sair, por avião),  insiste numa ideia importante: o sucesso consistiu precisamente em não haver violência armada porque as forças portuguesas mantiveram capacidade de combate até ao último momento. Ou seja, as NT não depuseram as armas. Embarcaram de armas na mão.

Em Saigão aconteceu o contrário: o exército sul-vietnamita desintegrou-se em muitas zonas.  Houve pânico entre civis e militares, e a  evacuação tornou-se caótica. Enfim, foi uma retirada humilhante e traumatizante para quem a viveu.

  • O ambiente psicológico foi diferente

Em Bissau, foi mantida a disciplina militar (de um lado e do outro). A  cadeia de comando manteve-se intacta.  A  transferência formal de soberania foi feiota como o prevista. E, por outro lado, não houve praticamente civis a evacuar.

Em Saigão, pelo contrário, houve pânico generalizado, milhares de pessoas (mais próximas no núcleo duro do regime do Vietname do Sul e dos seus aliados) tentavam desesperadamente embarcar nos helicópteros, ao mesmo tempo que se verificava o colapso administrativo do Estado sul-vietnamita.

As famosas imagens dos helicópteros sobre os telhados  (vd,. foto acima) refletem isso.

Onde é que a comparação é válida?   Historicamente, pode dizer-se que ambos os acontecimentos representam o  fim de projetos coloniais ou de influência geopolítica. Reconhecia-se (e aceitava-se) que a solução militar para o conflito deixara de ser sustentável.  Houve, num caso e noutro,  impactos de natureza societal e psicológica.

Para muitos militares portugueses que serviram na Guiné, Angola ou Moçambique, o 15 outubro de 1974, em Bissau,  terá  tido um peso emocional semelhante ao que  o 29/30 de abril de 1975 teve para muitos veteranos  americanos do Vietname. (Salvaguardadas as devidas distâncias...).  Em todo o caso, não se pode falar da Guiné como o "Vietname Português"...

Onde é que as duas retiradas não são comparáveis ? Se estivermos a falar da execução militar da retirada, a comparação torna-se mais fraca.

Segundo os elementos do documento que partilhámos no blogue (**), a retirada da Guiné aproxima-se mais de uma extração militar organizada e negociada enfim, uma retirada planeada sob paz armada; enquanto que,  no caso de Saigão  (29/30 de abril de 1975),  foi uma evacuação de emergência perante o colapso de um regime aliado dos EUA  (o Vietname do Sul).

~
Manuel Beleza Ferraz 
É precisamente essa diferença que torna a operação portuguesa relativamente pouco conhecida a nível tanto interno como externo: não teve visibilidade mediática, nem no nosso "Diário de Lisboa", que eu lia todos os dias, era o meu jornal... 

E até terá passado despercebida da maior parte dos antigos combatentes portugueses..... De facto, não houve imagens de pânico, não houve combates finais (nem sequer escaramuças), nem multidões a tentar fugir. 

De resto, os portugueses em Portugal (mas também em Angola e Moçambique, as duas verdadeiras "joias da Coroa"),   seis meses depois do 25 de Abril, tinham mais do que se preocupar  do que com o fim da "guerra da Guiné"... 

De qualquer modo, do ponto de vista militar, o que fica para a história é que o planeamento logístico cumpriu o seu objetivo, como diz o nosso Luís Gonçalves Vaz (**). Os 2500 militares, os últimos soldados do império no território da Guiné (a partir de então Guiné -Bissau), 
puderam finalmente chegar a casa. Incluindo o primo  marinheiro radiotelegrafista Manuel Beleza Ferraz,   da guarnição da LFG Lira, felizmente ainda vivo, e autor de algumas das fotos que o Luís Gonçalves Vaz aqui publicou. 
___________________

Notas         do editor LG:

(*) Vd. poste de 5 de maio de 2025 Guiné 61/74: P26766: Efemérides (454): O fim da guerra do Vietname foi há 50 anos ("Diário de Lisboa", 30 de abril de 1975)

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28114: Documentos (64): A Última Operação: Retirada Final – Ordem nº 1/74: Retirada da Guiné em 15 de outubro de 1974 (Luís Gonçalves Vaz, filho do Cor Cav CEM Henrique Gonçalves Vaz (Barcelos, 1922- Braga, 2001), último Chefe do Estado-Maior do CTIG, 1973/74),



Cabeçalho da Ordem de Operações nº 1/74.  O documento foi desclassificado em 2017. “Documento cedido pela Biblioteca Central da Marinha - Arquivo Histórico
 


Luís Gonçalves Vaz, grão-tabanueiro nº 530
filho do Cor Cav CEM Henrique Gonçalves
Vaz (Barcelos, 1922- Braga, 2001)
(último Chefe do Estado-Maior
do CTIG, 1973/74, e, a partir de 26 de agosto
 de 1974, ​ foi também o chefe do 
Estado-Maior 
do Comando Unificado 
no TO da Guiné)

Introdução: A Memória e o Documento — Revisitando o 15 de outubro de 1974

Ao longo das últimas décadas, a narrativa sobre a presença portuguesa na Guiné tem sido construída, por um lado, pelo depoimento vivido daqueles que ali serviram e, por outro, pelo silêncio, muitas vezes imposto, dos documentos que só agora começam a ser plenamente integrados na historiografia pública com a sua "Desclassificação" nos vários Arquivos Portugueses.

Este artigo propõe uma revisitação necessária à data de 15 de outubro de 1974 — o marco derradeiro da retirada das tropas portuguesas do CTIG. 

Se, em 2012 (data do meu último artigo sobre a Retirada Final da Guiné) (*), a abordagem a este momento histórico dependia essencialmente da memória oral e do relato pessoal, hoje, o distanciamento temporal e 
o acesso a fontes primárias de natureza confidencial já "desclassificadas", permitem-nos um olhar clínico e rigoroso.

Através do cruzamento inédito entre a Ordem de Operações nº 1/74 do Comando Unificado — documento que traçou, com precisão técnica e logística, o complexo movimento de retirada por via marítima entre os dias 14 e 15 de outubro — e os testemunhos diretos, nomeadamente do meu falecido pai, cor cav CEM Henrique Gonçalves Vaz, último Chefe do Estado-Maior do Comando Unificado na Guiné, e a perspetiva, no terreno, do meu primo marinheiro radiotelegrafista Manuel Beleza Ferraz, procura-se aqui não apenas narrar, mas documentar a mecânica da descolonização nesta Colónia Portuguesa.

Mais do que o relato de um fim, este artigo pretende ser um exercício de rigor histórico: confrontar o plano operacional com a realidade humana da partida. Ao alinhar a "Ordem de Operações" com a "ordem dos afetos e da vivência", este trabalho oferece aos amigos e camaradas da Guiné   e aos demais leitores do nosso blogue uma nova leitura sobre o desfecho de uma missão que marcou, definitivamente, a história de Portugal e da Guiné.

Um grande Abraço

Braga, 08/06/2026

Luís Beleza Vaz

(Tabanqueiro nº 530 e filho do último CEM/CTIG)



O navio Uíge no porto de Bissau em 28 de outubro de 1969 a descarregar material de guerra



A Última Operação> Retirada Final – Ordem  nº 1/74: Retirada da Guiné em 15 de outubro de 1974

por Luís Gonçalves Vaz 


MISSÃO: Efectuar a Retirada Final das NT (nossas tropas) da Ilha de Bissau garantindo o seu embarque via marítima para a Metrópole com a maior discrição, dignidade e segurança.

 A Ordem de Operações nº 1/74 foi um documento estratégico de alto nível, emitido pelo então Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné (CCFAG), que definiu as fases, os meios logísticos (navios, transportes aéreos, etc), as responsabilidades de segurança e os itinerários de retirada (**).

Como já apresentei aqui no blogue,  no poste P9535, de 26 de fevereiro de 2012, um artigo sobre a “Retirada Final” da Guiné (*), resolvi agora, e com recurso à consulta do Fundo Coloredo do Arquivo Histórico da Marinha, nomeadamente à consulta da Ordem de Operações nº 1 de 1974,  BCM (Biblioteca Central da Marinha)(Pasta 179), Diretiva de 9 de outubro de 1974 do Comandante-Chefe aos Comandantes dos três Ramos das Forças Armadas no TO  da Guiné, realizar um artigo com mais detalhe sobre esta última operação militar, comandada pelo Comodoro Vicente de Almeida d ́Eça, que foi o Comandante do Comando da Defesa Marítima da Guiné entre 4 de janeiro de 1974 e 28 de outubro de 1974, bem como o Comandante da Força Naval que transportou os últimos efetivos portugueses ali estacionados.

A referência à Ordem de Operações nº  1/74 como o plano mestre para a retirada final de cerca de 2.500 militares (os últimos contingentes que permaneceram em Bissau e noutros pontos fulcrais nesta altura do mês de outubro), reflete o culminar da transição negociada entre o Comando-Chefe português, liderado à época por Carlos Fabião, e o PAIGC.

Depois de de lermos a Ordem de Operações nº 1/74, percebe-se que esta retirada não foi apenas um "ir embora", pois exigiu a catalogação e o transporte de material de guerra, a coordenação com a Força Aérea e a Marinha (especialmente o papel dos navios de transporte, como o Uíge, que figura nas memórias fotográficas da época como o símbolo do final da presença portuguesa) e a manutenção de um cessar-fogo rigoroso que evitasse incidentes durante a desocupação das posições.

A emissão desta ordem de operações, o "Ponto Final" da nossa Colónia da Guiné, foi o instrumento que permitiu que o processo, iniciado com o Acordo de Argel assinado em 26 de agosto de 1974, se concretizasse. O facto de ser a "nº 1/74" sublinha que se tratou da primeira e decisiva operação de desmobilização total e encerramento de um Teatro de Operações, após décadas de guerra.

Esta ordem representa, na prática, um "roteiro" para o fim da Guerra Colonial na Guiné, marcando a passagem de um estado de beligerância para a transferência de soberania, consolidando assim a retirada das tropas que, em outubro de 1974, aguardavam nas docas de Bissau a sua partida definitiva para a Metrópole.

Este documento é, sem dúvida, uma peça de arquivo valiosa para a historiografia do 25 de Abril e do processo de descolonização, pois documenta o plano de execução para a evacuação final das forças nacionais.


A fragata “Comandante Roberto Ivens” foi o navio-chefe onde se coordenou toda a operação e onde 
embarcou o Comandante da FO27 (Força de Combate 27), o comodoro Vicente Almeida d'Eça (foto: cortesia de Navios da Armada, página do Facebook (Do Livro da Fabrica das Naus de Fernando Oliveira aos nossos dias. Viva a Briosa).

Ao falarmos na Ordem de Operações nº  1/74 e no rigor técnico da retirada, tocamos num ponto que muitas vezes é ignorado, o papel crucial da Marinha de Guerra Portuguesa, quer durante o conflito neste TO, quer na logística de desocupação desta Colónia. 



Capitão-de-Fragata (em 1966),  Vicente Almeida d' Eça (1918-2018) 
Fotografia gentilmente  cedida pela Biblioteca Central 
da Marinha - Arquivo Histórico

Enquanto a narrativa política se foca no 25 de Abril e nas negociações, a execução prática da retirada, especialmente a retirada final em quinze de 
outubro de 1974, foi uma operação logística de uma complexidade técnica monumental, quase exclusivamente conduzida pelos meios navais.

O rigor técnico mencionado nesta Ordem de operações, decorre de vários fatores que ela teve de acautelar, nomeadamente:

  • A Logística de Transporte: retirar 2.500 militares não significava apenas embarcá-los. Implicava transportar armamento pesado, equipamento de comunicações, arquivos confidenciais e material de intendência. A Marinha organizou o "Comboio da Descolonização",                                                                  onde o NRP Uíge e o NRP  Niassa  foram as peças-chave.
  •  Segurança e Cessar-Fogo: a Ordem de Operações Nº 1/74 tinha de prever a manutenção de um perímetro de segurança em Bissau até ao último segundo; o rigor era vital para evitar incidentes que pudessem degenerar em confrontos armados no momento da transição, o que exigia uma coordenação minuciosa entre as guarnições dos navios, os fuzileiros em terra e os postos de comando conforme  relato no artigo da Retirada Final,   em 14 e 15 de outubro  de 1974 (Luís Gonçalves Vaz / Manuel Beleza Ferraz) (*);
  • “Segundo o ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, os navios que se encontravam a realizar a 'segurança de rectaguarda'  mais próxima às tropas que iriam retirar-se para os navios ao largo no Rio Geba, eram a LFG Órion e a LFG Lira.
Encontravam-se também ao largo em missão de Segurança um patrulha (NRP Cuanza) e o navio NRP Comandante Roberto Ivens, este último a comandar as operações navais desta missão de “Retirada Final”. 

No próprio navio Uíge estava montado discretamente um dispositivo de segurança pronto a abrir fogo, caso o PAIGC se lembrasse de abrir alguma hostilidade contra o último pessoal militar a abandonar a Guiné, com algumas metralhadoras HK-21, além de todos os militares estarem armados com as suas G3 e as respectivas munições.


Guiné-Bissau > 15 de outubro de 1974 > A LFG Lira, depois de abandonar o Rio Geba na Guiné, a escoltar os T/T Uíge e Niassa até águas internacionais. Foto do álbum do marinheiro radiotelegrafista 812/70 Manuel Beleza Ferraz.

Foto (e legenda): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


Após o “Arriar da Bandeira Portuguesa”, as tropas portuguesas dos três Ramos das Forças
Armadas, presentes na referida cerimónia, logo de seguida foram transportadas em zebros e
LDM (lanchas de desembarque médias) para o navio Uíge, que os aguardava no meio do Rio
Geba, a cerca de 400 metros afastados do cais, onde se encontrava já com as máquinas em pleno funcionamento ("pairavam") por razões de segurança.




Guiné > Bissau > c. out 1974 > Lancha de Fiscalização Grande (LFG) Lira, atracada na ponte-cais, poucos dias antes da “retirada final” em 15 de Outubro de 1974. Foto do álbum do marinheiro radiotelegrafista 812/70 Manuel Beleza Ferraz.


Fotos (e legendas): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


O ex-Marinheiro Radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, fonte destes testemunhos históricos, aqui relatados, informou-me ainda de que as ordens vindas do Comando Naval, com apenas 24 horas de antecedência, foram entregues em mão aos comandantes das duas LFG (Orion e Lira) e do patrulha Cuanza, presentes ao largo do cais, no caso do seu navio, o patrulha Lira, recebeu directamente o seu Comandante, 1º tenente Martins Soares.

Como tal, os comandantes destes três navios que constituíam nesse dia, a “força naval” em frente ao cais de Bissau, receberam ordens expressas “para se posicionarem em postos de combate”, com todas as peças Bofors de 40mm, devidamente municiadas e preparadas para realizarem fogo, como apoio de retaguarda à retirada das nossas tropas, de terra para os navios, nomeadamente o Uíge.”

Na secção "Situação" desta “Ordem de Operações”, é descrito o planeamento da retirada marítima de aproximadamente 2.500 militares das Forças Armadas Portuguesas da zona de reagrupamento da Ilha de Bissau, prevista para ocorrer entre os dias 13 e 15 de outubro (15outT).

No ponto das "Forças inimigas", também é referido que, embora a colaboração das forças policiais da República da Guiné-Bissau estivesse, em princípio, assegurada para evitar aglomerações de população junto à zona portuária, não era de excluir a hipótese de ocorrência de "actos inamistosos".

Na secção “Execução”, é referido que durante a noite de 13/14 de outubro descolará de Bissau o último avião da ponte aérea militar para Lisboa (voo que transportou o brigadeiro Carlos Fabião e o seu Estado-Maior, nomeadamente o último Chefe do Estado-Maior do então Comando Unificado, o coronel do CEM Henrique Gonçalves Vaz). 

Diz ainda que o T/T “Uíge”, atracado, embarcará cerca 1380 elementos da nossa Tropa. 

Finalmente diz que o embarque das restantes efetivos terá lugar na noite de 14/15 de outubro em LDG atracadas na ponte cais que os transportará para o T/T ”Niassa” e para o NRP “S. Gabriel” fundeados no canal do rio Geba. 

Quanto à segurança é referido que as Forças “FO27” assegurarão a proteção dos efetivos a embarcar, tanto no embarque e largada do cais como nos trânsitos fluviais até aos transatlânticos (T/T) e promoverá a escolta destes até à hora de espera.



Guiné > Bissau > s/d > Três das LFG (Lanchas de Fiscalização Grandes) que integraram a Operação nº 1/74 no cais de Bissau (Foto: cortesia do blogue de Luís Cavaleiro, Rio dos Bons Sinais, disponível aqui)-

Quanto à “Organização Operacional”, a ordem detalha a estrutura da força-tarefa naval (FO27 - Força Operacional Embarque), liderada pelo Comodoro Almeida d'Eça, dividida em cinco grupos funcionais, conforme se pode ver no organigrama seguinte:


Organigrama construído a partir da Organização Operacional apresentada logo no início da Ordem
Operacional nº 1/74. Fonte: Fundo Coloredo | Arquivo Histórico da Marinha (Infografia cedida pela Biblioteca Central da Marinha - Arquivo Histórico)


Este documento fornece sem dúvida um registo claro das medidas logísticas e defensivas tomadas pelas forças militares portuguesas durante as fases finais da sua presença na Guiné em 1974.

Relativamente à coordenação Interforças, este documento é uma peça de engenharia militar porque estabeleceu a sincronização entre a desocupação dos quartéis do Exército e a prontidão dos navios no porto. A precisão horária era a única garantia de que ninguém ficaria para trás ou exposto sem proteção.

O facto de ter consultado o Arquivo Histórico da Marinha e encontrado este rigor nesta “Ordem de Operações nº 1/74”, confirma que de facto a descolonização, vista pelos olhos dos oficiais que a planearam e executaram, foi um processo de gestão de risco elevado. 

A Ordem de Operações nº 1/74 não foi apenas um "fim de guerra", mas o documento que garantiu que a soberania portuguesa fosse transferida de forma organizada, mantendo a disciplina militar intacta até ao arriar da última bandeira.

É um registo que retira o processo da esfera puramente política e o coloca no lugar que lhe cabe: uma operação militar de grande envergadura, planeada com a precisão exigida pela hierarquia militar da época.



Guiné > LFG Lira > s/d  > Elementos da guarnição do NRP Lira, em convívio na sala
comum/refeitório. Foram estes os marinheiros que,  no dia 15 de outubro de 1974, nos seus lugares de combate e outros, asseguraram a operacionalidade da NRP Lira, no que diz respeito ao apoio e segurança na evacuação do último contingente militar do território da Guiné.

Foto (e legenda): © Manuel Beleza Ferraz (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem complementar: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)

´
Embora os "tiros" tenham parado, a missão militar continuou sob um rigor técnico extremo, de forma que esta "Operação nº 1/74" foi, na prática, a operação de logística militar mais complexa da história recente de Portugal, pois exigia que os militares mantivessem a disciplina, a hierarquia e a segurança enquanto o território sob os seus pés deixava de ser português.

Em suma, esta última operação na Guiné foi, tecnicamente, uma operação de combate defensivo em contexto de paz armada. Os elementos que consegui recolher, desde depoimentos à análise deste documento histórico (a Ordem de Operações nº 1/74), confirmam que não houve desleixo na sua preparação, pois:
  • a manutenção de perímetros de segurança com tropas de infantaria e fuzileiros, prontos para responder, foi o que impediu o vácuo de poder que, noutros cenários mundiais de descolonização, levou a massacres;
  • o apoio naval: as lanchas de desembarque com metralhadoras prontas não eram apenas um dispositivo de transporte; eram plataformas de fogo de cobertura; o  facto de a Marinha ter mantido esse poder de fogo visível e operante foi o fator dissuasor que garantiu que nenhum grupo se sentisse tentado a atacar as colunas de retirada; 
  • a "não-violência" como sucesso militar: um dos maiores erros históricos é pensar que "não houve combates" porque "não houve guerra"; o sucesso real foi que não houve combates precisamente porque a força portuguesa se manteve capaz de combater; se a prontidão não estivesse ao mais alto nível, a operação teria sido um alvo fácil.

A Ordem nº 1/74 não foi uma "entrega", foi uma manobra de extração realizada sob condições de combate potencial. Esta foi talvez a operação de maior sucesso de toda a presença portuguesa na Guiné, não por ter conquistado território, mas por ter garantido a integridade física de todos os seus homens.


Fonte: Luís Gonçalves
Vaz (2024)
Conclusão: foi o planeamento rigoroso da Marinha, em cumprimento da Ordem de Operações nº 1/74 emitida pelo Comandante-Chefe (mas planeada pelo seu Estado-Maior), em sintonia com a prontidão das unidades em terra que permitiu que o regresso das nossas tropas fosse feito sem
baixas.

Este regresso não foi um ato de desistência, foi o último ato de uma força que, até ao último segundo, soube manter-se coesa, profissional e preparada para o pior cenário.

Braga, 08/06/2026
´
Luís Beleza Vaz
Grão-Tabanqueiro nº  e filho do último CEM/CTIG, cor cav Henrique Gonçalves Vaz (Barcelos, 1922 - Braga, 2001; foto à direita)


Anexo > Cabeçalho da Ordem de Operações nº 1/74
 (publicado no topo deste poste). O documento foi desclassificado ~
em 2017. “Documento cedido pela Biblioteca Central 

(Revisão / fixação de texto: LG)

______________

Notas do editor LG:

(*) Vd.  postes de:



(**) Último poste da série > 2 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27786: Documentos (63): A retirada de Madina do Boé: a jangada - Parte II (Cálculo das dimensões e lotação, com a ajuda das fotos e da IA)

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Guiné 61/74 - P27446: Memórias dos últimos soldados do império (9): os "últimos moicanos" - Parte VI: A Retirada Final, em 14 e 15 de outubro de 1974 (Luís Gonçalves Vaz / Manuel Beleza Ferraz)


Guiné > Bissau >  c. out 1974 > Lancha de Fiscalização Grande (LFG) Lira, atracada na ponte cais, poucos dias antes da “retirada final” em 14 de Outubro de 1974. Foto do álbum do marinheiro radiotelegrafista  812/70 Manuel Beleza Ferraz.


Guiné > Bissau >  c. out 1974 >  4 Lanchas de Fiscalização Grandes (LFG), uma pequena, e uma LDM na Ponte Cais em Bissau, npoucos dias antes da “retirada final” do dia 14 de outubro de 1974. É visível o N/M Uíge ao fundo, preparado para transportar os últimos militares portugueses da Guiné.  Foto do álbum do marinheiro radiotelegrafista  812/70 Manuel Beleza Ferraz.


Guiné > Bissau >  Setembro de 1974 > Ponte cais de Bissau com duas Lanchas de Fiscalização Pequenas (LFP) e uma de desembarque ( LDM ) ao fundo do lado direito.. Algumas destas lanchas foram deixadas na Guiné-Bissau.  Foto do álbum do marinheiro radiotelegrafista  812/70 Manuel Beleza Ferraz.


Guiné-Bissau > 14 de outubro de 1974 > A LFG Lira, depois de abandonar o Rio Geba na Guiné, a escoltar os T/T Uíge e Niassa até águas internacionais. Foto do álbum do marinheiro radiotelegrafista  812/70 Manuel Beleza Ferraz.
 
Fotos (e legendas): © Manuel Beleza Ferraz  (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)
 


 Luís Gonçalves Vaz e  Manuel Beleza Ferraz


A Retirada Final: Os  Últimos Militares Portugueses a Abandonar a Guiné (14 e 15 de Outubro de 1974)  
 
por Luís Gonçalves Vaz / Manuel Beleza Ferraz (*)


Os últimos aquartelamentos a serem entregues ao PAIGC foram:

  • o Complexo Militar de Santa Luzia, onde se encontrava o QG/CTIG (Quartel General do Comando Territorial Independente da Guiné);
  •  e o QG/CCFAG (Quartel General do Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné) instalado no histórico Forte da Amura,  que se localizava mesmo em frente à ponte-cais em Bissau. (#)
A entrega destes dois últimos redutos das Forças Armadas Portuguesas na Guiné foram “negociados” em 11 de outubro (apenas 3 dias antes da saída dos últimos militares portugueses deste território), numa reunião no Forte da Amura com os comandantes do PAIGC, Gazela, Bobo Keita e o comandante Correia, sob a coordenação do então CEM/CTIG (Chefe do Estado-Maior do CTIG), coronel cav CEM Henrique Gonçalves Vaz.

Os “Planos de Entrega destes Aquartelamentos” foram realizados pelo  cor Henrique G. Vaz com a colaboração do  major Mourão, e entregues ao brigadeiro graduado Carlos Fabião no dia 10 de outubro de 1974, um dia antes da reunião com os comandantes do PAIGC. 

A entrega do Complexo Militar de Santa Luzia foi efectuada no dia 13 de outubro, pelas 15 horas, enquanto o Forte da Amura, o último “reduto militar português”,  foi entregue apenas no dia 14 de outubro, o dia previsto para a “retirada final”, e reservado para o embarque do que restava das tropas portuguesas na Guiné.



Guiné > Bissau > Forte da Amura > Entrada do lado sul (frente à ponte-cais). Era aqui que estva instalado o QG/CCFAG (Quartel General do Comando-Chefe das Forças Armadas da Guiné), o último reduto militar portuguès a ser entregue ao PAIG, em  14 de outubro de 1974.

Foto: © Manuel Coelho (2011). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)

Como tal foi concentrado aí, na véspera da partida, o último contingente do Exército Português . No entanto a cerimónia oficial da transição da soberania nacional na Guiné, para o PAIGC, já tinha decorrido em Mansoa, em 9 de setembro. Estiveram presentes nesta cerimónia:

(i) a CCS / BCAC  4612/74, comandada pelo major Ramos de Campos:

(ii) o comandante do batalhão, tenente coronel Américo Costa Varino;

(iii) um bigrupo de combate do PAIGC;

(iv) um grupo de pioneiros do mesmo partido;

(v) Ana Maria Cabral (viúva de Amílcar Cabral) e seu filho;

(vi) o comissário político do PAIGC, Manuel Ndinga;

(vii) e, em representação do chefe do Estado-Maior do Comando Territorial Independente da Guiné (CEM do CTIG),  o tenente-coronel Fonseca Cabrinha (informações dadas pelo próprio militar que arriou a nossa bandeira em Mansoa, o nosso coeditor Eduardo José Magalhães Ribeiro, fur mil Op Esap / Ranger, CCS/BCAÇ 4612/74 ).


Guiné > Região do Oio > Mansoa >9 de setembro de 1974   > Uma foto para a história: o ex-fur mil OE/Ranger Eduardo Magalhães Ribeiro,. hoje nosso coeditor, CCS/BCAÇ 4612/74 (Mansoa, abr - out 1974), a arriar a bandeira verde-rubra, na presença de representantes do PAIGC (incluindo a viúva de Amílcar Cabral) e de autoridades militares do CTIG.




Guiné > Região do Oio > Mansoa >9 de setembro de 1974   > Cerimónia da transição da soberania nacional na Guiné, que decorreu em 9 de setembro de 1974, aquando da entrega do aquartelamento de Mansoa ao PAIGC, e troca de cumprimentos entre o Comandante do BCAÇ 4612/74, tenente coronel Américo da Costa Varino e os comandantes do PAIGC presentes na cerimónia.

Fotos do álbum do Eduardo José Magalhães Ribeiro,  fir mil OE/Ranger, CCS/BCAÇ 4612/74, (Cumeré,. Mansoa e Brá, 1974)

Fotos (e legendas): © Eduardo Magalhães Ribeiro (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]

O que vos vou passar a relatar será uma pequena narrativa, dos últimos momentos da nossa “retracção do dispositivo militar”, deste último reduto de militares portugueses, para os navios da Armada Portuguesa e para o navio Uíge (o navio Niassa já se encontrava ao largo de Bissau) , que se encontravam frente à ponteis, mas a alguns metros do cais, com os motores ligados (pairavam todos os navios).

Esta descrição foi-me feita pelo meu primo e ex-Marinheiro Radiotelegrafista da Armada Portuguesa, Manuel Aurélio de Araújo Beleza Ferraz, que fazia parte da guarnição da LFG (Lancha de Fiscalização Grande) Lira, um dos navios que fez a segurança de retaguarda, durante o embarque dos últimos militares portugueses na Guiné.


Guiné > Bissau >  c. out 1974 > O Manuel Beleza Ferraz. LFG  Lira, atracada na ponte cais, poucos dias antes da “retirada final” em 14 de Outubro de 1974. Uma testemunha-.chave, um dos "últimos moicanos". 


Guiné > Região de Tombali > Rio Cacine >  s/d  > Evacuação de pessoal civil  (cuja origem se desconhece, náo devendo ser de Gadamael nem de Jemberé,m), passagem dos civis de uma Lancha de Desembarque, para a LFG Lira, em pleno Rio Cacine, muito abaixo da “marca lira”.


Guiné >  LFG Lira > s/l > c. out 1974 :> O marinheiro radiotelegrafista Manuel Beleza Ferraz, no  seu navio navio, à espera da missão da “Retirada Final"


Guiné > LFG Lira > c. ou 1974 _ Elementos da guarnição do NRP Lira, em convívio na sala comum/refeitório. Foram estes os marinheiros que no dia 14 de outubro de 1974, nos seus lugares de combate e outros, asseguraram a operacionalidade da NRP Lira, no que diz respeito ao apoio e segurança na evacuação do último contingente militar do território da Guiné.

Estima-se que seriam algumas centenas de militares dos três Ramos das Forças Armadas Portuguesas. Neste grupo estavam representadas as várias Especialidades do navio, nomeadamente, Artilheiros, Eletricistas, Telegrafistas e Manobras. Este navio, o NRP Lira, sob o comando do 1º tenente Martins Soares, teve um papel importante na missão de “Retirada Final”, já que era o navio de apoio de retaguarda que se encontrava mesmo em frente à Ponte cais de Bissau, como tal o navio mais próximo do Forte da Amura. O Marinheiro Radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz é o que está a olhar para o fotógrafo.

Fotos do álbum do marinheiro radiotelegrafista 812/70 Manuel Beleza Ferraz.
 
Fotos (e legendas): © Manuel Beleza Ferraz  (2012). Todos os direitos reservados. (Edição e legendagem: Bogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)

No dia 14 de outubro, decorreu a última cerimónia de “Arriar da Bandeira Portuguesa”, ao qual se seguiu o “Hastear de Bandeira da República da Guiné-Bissau” (a última bandeira nacional em Bissau só foi retirada 4 ou 5 semanas depois de 14 de Outubro de 1974, sem cerimónia oficial) como tal nesse mesmo momento, todo o que restava do contingente militar português (à excepção de dois pequenos destacamentos de tropa portuguesa, da Marinha e da Força Aérea, esta na já ex-BA 12, em Bissalanca, mas ainda com helicópteros AL-III, e o destacamento 
da Marinha nas suas antigas instalações, para colaborarem na transição e transmissão de técnicas/procedimentos, conhecimentos e experiências de navegação aérea e marítima, com elementos do PAIGC), encontrava-se agora em território estrangeiro.

Nessa cerimónia encontrar-se-iam o Governador (brigadeiro graduado Carlos Fabião), o Comandante Militar (brigadeiro Galvão de Figueiredo), o Chefe do Estado-Maior do CTIG (coronel Henrique Gonçalves Vaz), outros oficiais, alguns sargentos e praças. Os primeiros depois de assistirem ao embarque de todos os militares nos navios que se encontravam ao largo no estuário do Rio Geba, seguiram para o Aeroporto, onde mantínhamos ainda um dispositivo de segurança.

Mal acabou a cerimónia referida anteriormente, e segundo testemunho do ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Aurélio A. Beleza Ferraz, que se encontrava nesta altura na LFG Lira, todas as guarnições dos nossos navios que se encontravam na zona, estavam por ordens superiores, em posição de combate (para qualquer eventualidade), estando todos os operacionais equipados com coletes salva-vidas, capacetes metálicos e as Bofors (peças de artilharia antiaéreas de 40 mm) sem capa e municiadas, prontas a realizar fogo de protecção à retirada das nossas tropas, que ainda se encontravam em terra.

Segundo o ex-marinheiro radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, os navios que se encontravam a realizar a “segurança de rectaguarda” mais próxima às tropas que iriam retirar-se para os navios ao largo no Rio Geba, eram a LFG Órion e a LFG Lira.

Encontravam-se também ao largo em missão de Segurança um patrulha (NRP Cuanza) e o navio NRP Comandante Roberto Ivens, este último a comandar as operações navais desta missão de “Retirada Final”. No próprio navio Uíge estava montado discretamente um dispositivo de segurança pronto a abrir fogo, caso o PAIGC se lembrasse de abrir alguma hostilidade contra o último pessoal militar a abandonar a Guiné, com algumas metralhadoras HK-21, além de todos os militares estarem armados com as suas G-3 e as respectivas munições.

 Após o “Arriar da Bandeira Portuguesa”, as tropas portuguesas dos três Ramos das Forças Armadas, presentes na referida cerimónia, logo de seguida, foram transportadas em zebros e LDM (lanchas de desembarque médias) para o navio Uíge, que os aguardava no meio do Rio Geba, a cerca de 400 metros afastados do cais, onde se encontrava já com as máquinas em pleno funcionamento (pairavam) por razões de segurança.

O ex-Marinheiro Radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, fonte destes testemunhos históricos, aqui relatados, informou-me ainda de que as ordens vindas do Comando Naval, com apenas 24 horas de antecedência, foram entregues em mão aos comandantes das duas LFG (Orion e Lira) e do patrulha Cuanza, presentes ao largo do cais, no caso do seu navio, o patrulha Lira, recebeu directamente o seu Comandante, 1º tenente Martins Soares.

Como tal, os comandantes destes três navios que constituíam nesse dia, a “força naval” em frente ao cais de Bissau, receberam ordens expressas “para se posicionarem em postos de combate”, com todas as peças Bofors de 40mm, devidamente municiadas e preparadas para realizarem fogo, como apoio de retaguarda à retirada das nossas tropas, de terra para os navios, nomeadamente o Uíge.

Felizmente tudo correu bem, não sendo preciso fazer fogo nenhum, já que a retirada se desenrolou como o previsto, sem altercação de qualquer natureza. 

De seguida, no final dos transbordos, os zebros e as lanchas (LDM) foram presas numa boia em frente ao cais (abandonadas), e imediatamente a flotilha portuguesa escoltou os navios Uíge e Niassa (este já navegava mais à frente) até águas internacionais, seguindo a maioria dos navios da Armada para Cabo-Verde, de onde alguns deles partiriam pouco depois, em direcção a Angola.

O Marinheiro Radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, ainda informou que a flotilha que rumou em direção a Cabo-Verde, além dos navios já referidos (NRP Comandante Roberto Ivens, LFGs Orion e Lira e patrulha Cuanza) faziam parte também as LDG Ariete, Alfange e Bombarda, tendo estes navios da Armada atracado em 20 de outubro no porto de Mindelo na ilha de S. Vicente, Cabo Verde

A comitiva constituída pelo Governador (Brigadeiro Carlos Fabião), o Comandante Militar (Brigadeiro Figueiredo), o Chefe do Estado-Maior do CTIG (Coronel Henrique Gonçalves Vaz), bem como alguns outros oficiais do Estado-Maior, sargentos e praças, depois de assistirem ao embarque de todos os militares nos navios, que se encontravam ao largo do estuário do Rio Geba, e assegurando-se que tudo tinha corrido sem problemas e de acordo com o previsto nos “Planos de Retirada”, elaborados pelo CTIG/CCFAG que nesta altura se afirmava como o único Comando das Forças Armadas Portuguesas neste TO da Guiné, seguiram directamente para o Aeroporto de Bissalanca, onde mantínhamos ainda um dispositivo de segurança.

Às 2h30m do dia 14 de Outubro de 1974, estes militares serão os últimos a retirar da Guiné (por via aérea). Nesse momento estiveram presentes alguns Comandantes do PAIGC, que quiseram despedir-se dos “seus antigos inimigos”, e assim foi o fim da colonização da Guiné com cerca de 500 anos.

Mas antes de finalizar este artigo, gostaria aqui de referir o árduo trabalho atribuído ao último CEM/CTIG, coronel Henrique Manuel Gonçalves Vaz, já que foi o responsável, por “despacho escrito do Brigadeiro/Governador”, Carlos Fabião, pela elaboração dos “Planos de Retirada do nosso Exército”, da “Carta sobre a Redução de Efectivos e Comissões Liquidatárias”, dos “Planos de entrega dos Aquartelamentos da Ilha de Bissau”, do “Estudo da Comissão Liquidatária do QG/CTIG em Lisboa”, das "Cargas dos aviões", entre outras responsabilidades.


Enfim o brigadeiro Carlos Fabião determinou que este oficial do Corpo do Estado-Maior e Chefe do Estado-Maior do CTIG/CCFAG, coronel Henrique Gonçalves Vaz, se responsabilizasse por todos estes assuntos, como tal fica aqui a minha homenagem a ele, bem como a todos os oficiais, sargentos e praças, que sob o seu comando, o ajudaram a realizar essa importante tarefa, nomeadamente o senhor tenente-coronel de artilhgaria Joaquim José Esteves Virtuoso, o senhor major Mourão, o senhor capitão Lomba, e outros oficiais, sargentos e praças, que colaboraram nesta última missão militar no TO da Guiné, a “Retirada Final”, a todos eles, a minha homenagem, o meu respeito e uma grande admiração, pois ficaram neste episódio da longa história portuguesa.

20 de Fevereiro de 2012
Luís Filipe Beleza Gonçalves Vaz
(Tabanqueiro nº 530 e filho do último CEM/CTIG)

(Uma primeira versão deste texto já tinha sido pubpicada sob o poste P9535, de 26/2/2012. Nova versão, com revisão / fixação de texto, edição de imagem e negritos: LG)


2. Comentário de  Albano Mendes Matos:

Caro Amigo Luís Gonçalves Vaz,

Só agora li o seu comentário ao meu escrito sobre o último a sair da Guiné.

Vou confirmar a data do último avião a sair da Guiné. No meu registo, consta saída em 14 de outubro pela 01h00. Pelas 13h00, do dia 13 ou 14, já não havia portugueses no QG, quando um comandante do PAIGC me deu boleia para Bissau. Julgo que fui o último a sair do QG. Nas ruas de Bissau, fui a andar. Estavam, ao largo, navios, com tropas, para zarparem para Portugal, logo que o último avião, onde eu vim, levantasse do aeroporto de Bissalanca.

Eu dependia do seu falecido pai. O seu pai saiu, pela manhã, para o Palácio do Governo ou para a Base Aérea da Bissalanca. Quando cheguei ao aeroporto, pelas 23h15, já todos os militares lá estavam.
Tenho jornal que tem a notícia da chegada do avião com os últimos militares da Guiné, que vou procurar, para confirmar a data. Tem a foto do general Galvão de Figueiredo.
´
Pelos vistos, o meu registo deve estar errado.
Os meus cumprimentos.
Albano Mendes de Matos
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014 às 21:21:18 WET

3. Resposta do Luís Gonçalves Vaz:

Caro sr tenente-coronel Mendes Matos:

(...) Agradeço-lhe se ter dignado vir aqui repor a verdade da data/hora (já vi que troquei a data/hora do último embarque no cais marítimo com o grupo data/hora do último voo), que julga ser a correta. Não vou nem quero opor-me à sua data de 13 ou 14 de outubro,quando refere no seu artigo, afinal trata-se do depoimento de um dos "protagonistas deste momento histórico", que como tal merece toda a minha credibilidade. 

Mas gostaria de o informar que "oficialmente" no Relatório que possuo,elaborado pela 2ª Rep do QG e autenticado pelo sr. major Tito Capela, na página 46, apresenta para o último embarque aéreo das nossas tropas, o grupo "Data/Hora" de 140230Out, como o embarque do Cmdt Chefe e elementos do QG. 

"Informa também" que foi no dia 13 de outubro que o QG/CTIG (Santa Luzia)  foi entregue, logo o seu artigo está de acordo com este Relatório "Secreto", de que já dei aqui visibilidade. Agora apercebo-me que "troquei" o grupo Data/Hora e, além de pedir desculpa a todos pela minha incorreção, quero também aqui corrigir esta hora, como tal onde digo "Às 23 horas do dia 14 de outubro de 1974, estes militares serão os últimos a retirar da Guiné...",  quero emendar para: "Às 2h30min do dia 14 de outubro de 1974, estes militares serão os últimos a retirar da Guiné (por via aérea ...)

Estive a reler o Relatório, e no mesmo o que parece uma "incoerência", pois o grupo Data/hora do último embarque (aéreo) é 140230Out, e o grupo data/hora da entrega do QG/CCFAG (Fortaleza da Amura), é 142300OutT, não o será, pois o último embarque de tropas portuguesas, foi por via marítima em LDG (no cais de embarque) pelas 23h00 (142300Out), executado diretamente da fortaleza da Amura para os navio Uíge e Niassa e, como tal,  devem ter sido estes os militares que entregaram o QG da AMURA (??). 

No entanto, e segundo este mesmo Relatório, estes navios só saíram da zona em 151000Out, em suma terão sido estes os últimos a abandonar este TO. Agora se assim não foi, então será esta minha fonte que não foi fiel no que concerne às datas (terá alguma gralha ou mesmo erro nestes grupos Data/Hora ?). 

Relativamente aos registos do meu pai, só encontrei a referência que seria no dia 14, a saber:

Bissau, 5 de Outubro de 1974

"... Dia de trabalho derivado da antecipação da nossa saída em 15 deste mês (pois passou para 14 de Outubro) ...

Coronel Henrique Gonçalves Vaz
(Chefe do Estado-Maior do CTIG)

Entretanto, também registou na sua agenda de CEM, a antecipação de vários voos de cargas .... A pressão era "muito grande" para que abandonássemos aquele TO.

Grande Abraço
Luís Gonçalves Vaz
domingo, 2 de março de 2014 às 15:14:43 WET
_________________

Notas do LGV:

(#) Mensagem do nosso amigo Luís Gonçalves Vaz, membro da nossa Tabanca Grande e filho do Cor Cav CEM Henrique Gonçalves Vaz (último Chefe do Estado-Maior do CTIG - 1973/74), com data de 21 de fevereiro de 2012:

Caros Editores:

Conforme o prometido, segue em anexo finalmente, o meu artigo sobre "A Retirada Final: Os Últimos Militares Portugueses a Retirar da Guiné   (Dia 14 de Outubro de 1974)".

Para este artigo, além de consultar as notas pessoais do meu falecido pai, também entrevistei um primo meu,  que era na altura Marinheiro Radiotelegrafista da Guarnição do Patrulha Lira (LFG Lira), com quem estive ainda na Guiné, mas que ficou lá até ao último dia, o dia 14 de outubro de 1974, juntamente com muitos outros militares, um deles, o meu falecido pai, o último CEM/CTIG.

Este meu primo, Manuel Aurélio de Araújo Beleza Ferraz, relatou-me na primeira pessoa as últimas horas da retirada para o navio Uíge, dos militares portugueses ainda presentes nesse dia em terra, para assegurarem a última cerimónia, o "Arrear da Bandeira Portuguesa", bem como me forneceu um conjunto de fotografias, que ilustram o poste (...)

Espero que não tenha "distorcido muito" estas últimas horas da nossa "Retirada Final" da Guiné, se o fiz, foi sem intenção. Por outro lado, peço desculpa não "elencar o nome" de todos aqueles militares que nesse mesmo dia, "deram o seu máximo" para não manchar o Bom Nome da Nação, numa altura difícil da nossa longa história... se um de vós lá estava, então deixe aqui "o seu depoimento", pois assim enriquecerá este relato de mais um dos "episódios históricos da descolonização portuguesa".

Grande Abraço
Luís Gonçalves Vaz

 
PS - Como recebi mais informações do camarigo Magalhães Ribeiro, sobre este dia histórico e também do dia 9 de setembro de 1974, aquando da cerimónia oficial da transição da soberania nacional na Guiné, para o PAIGC, em Mansoa, onde fiquei a saber que o meu falecido pai não esteve, pois em representação do chefe do Estado-Maior do Comando Territorial Independente da Guiné (CEM do CTIG), esteve o tenente-coronel Fonseca Cabrinha, como tal fui naturalmente compelido, a corrigir e complementar este artigo, que almejo que se transforme num "agregar de vários testemunhos, daquele dia 14 de Outubro de 1974", dia histórico para os portugueses, e que representa simultaneamente o fim do Império Português nestas paragens.

(##) Um agradecimento especial:

(i) ao meu primo e ex-Marinheiro Radiotelegrafista, Manuel Beleza Ferraz, marinheiro da guarnição de um dos últimos navios a abandonar as águas da Guiné, o Patrulha Lira;
e também

(ii) ao Eduardo José Magalhães Ribeiro, Furriel Miliciano de Operações Especiais/Ranger da CCS do BCAÇ 4612/74, Cumeré/Mansoa/Brá – 1974, pois sem os seus testemunhos, não poderia ter dado parte importante das informações, relatadas nesta minha pequena narrativa sobre a “retirada final da Guiné”.

Aos dois, que foram testemunhas deste momento histórico, o meu muito obrigado.
____________

Nota do editor LG: